Fevereiro a Abril

(jornal de notícias)

A vida íntima é cheia de passagens ridículas.

Camilo Castelo Branco.

2011

Funchal, Fevereiro, 12 – Sem disciplina para manter um diário, aqui venho, mas só de quando em quando, deixar umas notas sob o camiliano signo de boémia do espírito. Estes são os tabiques entre os livros que vou escrevendo, escapando aos géneros, contando as minhas histórias, enredado nos títulos, que nem sempre saem de uma fórmula que vou trauteando dias sem conta, encharcando-a em café e águas com gás, cimentando-a a pastéis de nata e a doce de abóbora com amêndoas. Não dispenso nem o cabrito nem o leitão assado, a divina lampreia ou umas sardinhas assadas recostadas em broa de Avintes, um verdasco e umas talhadas de presunto. Ai aquelas tardadas na varanda da casa do Adriano Correia de Oliveira sobre o Douro, já remançoso, na Quinta de Porcas, em intermináveis conversas sobre a arte de transformar o mundo sem precisarmos da Arte da Guerra do senhor Lao Tse! Coisas de sibaritas que nem todos entendem.

Não se vence a fatalidade.

Camilo Castelo Branco.

Funchal, Fevereiro, 13 – Vivo numa ilha onde não vejo as pessoas paradas observando o mar, creio que não o tomam directamente em conta. É de madrugada, da janela da cozinha, vendo, ao longe, as luzes do casario de Câmara de Lobos, com a lua espelhando num bom pedaço de mar, que tenho a consciência de ilhéu. Imagino lá a minha barca fantástica que vai até ao Cabo Girão, que ainda avisto, e aí dou a volta em busca dos rumos interiores, nunca anteriores. Mas nunca invejo os navegadores de asa delta, que voam, mas não se atrevem a sair dos limites da ilha. A madrugada leva-me sempre à janela da cozinha, a fincar os cotovelos no parapeito e a olhar o mar, mesmo quando as nuvens fecham a noite, tornando-a cinzenta. 

Funchal, Fevereiro, 14 – Ando em filmagens, narro lendas e contos populares da Madeira e do Porto Santo para umas câmaras de filmar, será uma série para a televisão regional. Ganhei o gosto de contar sem interlocutores que me interpelem, apenas técnicos que me ralham pela postura torcida, pelo reflexo das luzes nas lentes, pelas faltas de concordância da oralidade desenvolta, porque me esqueci de qualquer coisa, por uma súbita branca! Estou numa biblioteca de um coleccionador de arte, na sua casa-museu – a Casa-Museu de Frederico de Freitas – entre livros que não podem ser abertos porque nos museus os livros não são livros e apetece-me abri-los e não devo. Ainda bem que não sou autor de nenhum deles. 

Funchal, Fevereiro, 15 – Nas escolas que visito, a pergunta mais frequente é: quantos livros já escreveu? Encolho-me em dar números, limito-me a estender o braço, a mão aberta à altura que me der jeito e digo: um monte com esta altura. Os putos dizem: chiiii. Algum comenta: o gajo também é velho, tem a barba branca. E fico descansado. E continuo a escrever livros para aquelas impiedosas idades disfarçadas de inocência. Mas não me lembro disso diante do computador. Só que, quando me sento a escrever, lembro-me de dois gatos extraordinários que tive e me ajudavam a estar. Um, meio rafeiro, meio floresta não sei quê, inteligentíssimo, chamado Staline, que, zangado comigo, fugiu e foi mortalmente atropelado, e outro persa, lindíssimo, chamado Kafka, que morreu de doenças múltiplas.

Funchal, Fevereiro, 16 – Desde que li A última corrida de touros em Salvaterra, de Rebelo da Silva, e O Bispo Negro, de Herculano, entusiasmei-me com algo que chamo o conto histórico, face ao romance histórico, e gostaria de convencer a Maria de Fátima Marinho, especialista neste último género, a pensar naquele. Sou um contista, é inegável. Não tenho paciência para um romance, mas consigo chegar à extensão média da novela, na preocupação dos cânones! Mas não é preocupante. Ninguém deveria ser obrigado a romancear, para não lhe acontecer como a Trindade Coelho e a Torga e a outros, que tão assim se espalharam quando estavam bem no conto! Há ainda quem se sinta pressionado a escrever poemas e não passe de versejador. Às vezes, ao espelho, vejo um desses sujeitinhos…

Funchal, Março, 4 – Algo que sempre me entusiasmou, aliás desde pequeno, foi a literatura oral. Bem, literatura uma ova! Mas é cómodo chamar-lhe literatura como lhe poderia chamar Albertina ou Leopoldo. A minha avó e o meu pai eram excelentes contadores de contos e lendas, assisti a peças de teatro em aldeias, em que até matavam ovelhas em cena (Auto de José do Egito, no Planalto Mirandês, por exemplo) e pintavam actores com o sangue de ovelha ainda quente, ouvi Cristo na última ceia, de microfone em punho a dizer que, antes que o galo cantasse três vezes, um dos seus apóstolos o iria repudiar, e logo Judas, arrebatando-lhe o microfone, perguntaria, aumentando o som: E serei eu, Senhor? Carlos Wallenstein, a meu lado, ria a bom rir! Ou então quando andei atrás da Floripes, entre uns arbustos, com a cena parada no palco e dou com ela nos braços de um fotógrafo meu amigo, que era um engatatão incorrigível. Sorrindo, digo à moça: Olha que o seu pai, que está no palco, não vai gostar disto! E ela, rápida na resposta: Ora, ele é só pai no teatro! Eu é que sei da minha vida! Que espere! Que espere! E a representação esperou meia hora.

Funchal, Março, 6 – Camilo, sempre a meu lado, também sempre me deu maus conselhos e péssimos conceitos, o raio do homem: «A verdade é às vezes mais inverosímil que a ficção.» «Este mundo é um hospital de doidos.» «O homem de talento é sempre um mau homem.» «As bebedeiras são às vezes os purgantes da alma.» «A virtude triunfa infalivelmente.» Porém, disse algo fundamental, a nível político: «Necessariamente a tolice estará nas maiorias», mesmo que estas maiorias se disfarcem de minorias governando…

Funchal, Março, 11 – Ando às voltas com um novo livro de contos. Vou relendo e perguntando em que personagens estou eu. E então descubro que estou em várias, mas sem ter o expediente pessoano dos heterónimos nem a perspectiva de um dia recuperar as peças ao estilo de Frankenstein! E viro as páginas com o dedo a querer apontar este e aquele e quase sempre acerto com frades. Ora eu, na minha infância, tinha uma certa inclinação fradesca, não por mística, mas porque achava que vestir um hábito e apertá-lo com uma corda à cinta dava menos trabalho do que vestir uns calções, as cuecas, a camisa, o colete, a gravatinha, o casaco, as peúgas, enfim, tudo aquilo que me punham em cima da cama todos os dias! Agora, não sei porquê, arranjo sempre uns frades muito perversamente camilianos, com quem me identifico! E isto na altura em que a fé me deu às vilas-diogo!

 Funchal, Março, 13 – Certo crítico, dos raros que tratam dos meus livros, observava-me, em tempos, que eu me preocupava em demasia com a Guerra Civil de Espanha e o período imediatamente a seguir. Guardei para mim a resposta. Nem sei se a  deixarei aqui, que é para isso que servem estes diários. A verdade é que conheci gente que esteve envolvida no conflito e sofreu, gente que me contou histórias. Também li livros, visitei lugares. Demorei-me a reflectir e transformei contos que não são contos. Transformei-me como escritor naquele dia da minha adolescência em que encontrei sobre uma sepultura do cemitério de Espinho um exemplar abandonado do Refugio Perdido, de Soeiro Pereira Gomes. Soube mais tarde que era a sepultura deste escritor e militante comunista. Esses contos deram-me outra visão do mundo. E passei a interessar-me por um universo muito mais rico e poderoso, onde o sangue latejava mais e mais.

Funchal, Março, 14 – Publiquei Camilo Castelo Branco: Memorias Fotobiográficas. Camilo mandou-me uma nota em que aceita: «Depois da minha morte, é natural que os estilistas se preocupem com a minha vida e os meus recursos de artista». E numa linha à margem, referindo-se menos a esse livro do que ao que conhece meu: «Você está escrevendo bem. Faça muito por trabalhar sempre o estilo sem detrimento da ideia. Com estilo é que se derrubam ministérios». Ora que se acautele o actual…

Funchal, Abril, 5 – Esta tarde, no Centro Cultural Anjos Teixeira, no Funchal, com o Rui Nepomuceno, falei nos 80 anos da Revolta da Madeira. Ficou claro que não envolveu qualquer espécie de luta pela independência da ilha! Os exilados do 3 de Fevereiro, os oposicionistas madeirenses e os amotinados da questão da farinha somaram as forças e, por alguns dias, foi estabelecido um governo revolucionário que causou sérias dores de cabeça ao Botas. Ganhou a força, não a razão. Li um conto meu, A princesa encantada (de Cenas da vida de um Minotauro, 2000), que sintetiza os factos em termos de ficção. E falou-se do tal conto histórico.

Funchal, Abril, 12 – O livro Jardim, uma fraude, do Ribeiro Cardoso, deveria ser apresentado hoje num hotel do Funchal. Curiosamente, nem no hotel contratado nem nos hotéis e instituições de recurso tal foi possível por questões de agenda! O jardinismo no seu melhor. Atempadamente, sugeri o apócrifo estrangeiro Principado de S. José da Pontinha, em que é soberano-proprietário o meu amigo Renato I, o Justo. Porém, a organização preferiu fazer a sessão em terreno nacional – e tramou-se. Renato I garantia uma guarda pretoriana e uma plataforma anti-missil para a defesa dos ataques das forças do Governo das Angústias!

Funchal, Abril, 13 – Hoje, o DN da Madeira anunciou que figuro em segundo lugar na lista da CDU pelo Círculo da Madeira para as Eleições para a AR. Naturalmente, a lista abre com o Edgar Silva, uma das mais impolutas figuras de cidadão deste país. Devo dizer que não hesitei em assentir quando ele me perguntou se alinhava, pois me pareceu a atitude correcta para um madeirense a viver na sua terra e nas actuais circunstâncias. O escritor que sou não pode deixar de conjugar o extraordinário verbo que é estar com os outros! E esta ilha (só a ilha?) tem muitos escritores cegos, surdo e mudos por quilómetro quadrado.

O burro é triste por fora, mas alegre por dentro; e não poucas vezes se ri dos seus homónimos de dois pés.

Camilo Castelo Branco

Funchal, Abril, 22 – Ontem, sábado, recuperei o gosto pelo cabrito assado no forno. Excelente e bem regado com espumante de respeito. Apesar de corte à dieta, por motivo de antecipação de festa, hoje já foi um brando almoço de sardinha assada na Praia Formosa, abstendo-me de uma promissora tarte de maracujá! Há que tempos não toco em cerveja, pasteis de nata e outras barbaridades, segundo a nutricionista que parece vigiar-me em cada instante! De qualquer modo, olhando para os jornais, prossegue o folhetim da crise. Preparo o texto para a sessão de rua do próximo 25 de Abril, na Rua da Carreira, ao meio-dia. Na televisão, Nicolau Breyner entrevista Paulo Portas, seja CDS puxa pelo CDS. A Quadratura do Circulo tem um PS, um PSD e um CDS. No Dossier de Imprensa, também não há uma voz próxima da CDU. No entanto, basta chegarmos à Páscoa, ao Natal, ao 13 de Maio, por três exemplos, e logo a Igreja Católica tem tempo de antena garantidos. O 25 de Abril vai sendo riscado das comemorações, o 1º de Maio é feriado, mas por quanto tempo? O próprio Otelo já reclama um Salazar, ainda que não do tipo fascista à italiana(!!!!). Os do velho Grupo dos Nove, que, afinal de contas, estão na origem disto tudo, assobiam para o lado e mostram-se indignados! Às segundas, o combustível sobe de preço e a princesa Letizia está cada vez mais magra e a Espanha pode vir a ter problemas piores que os nossos e o sr. Sarkozi pode fechar as fronteiras a emigrantes da Patagónia. Refreareis o vosso riso?    

Funchal, Abril, 25 Intervenção na festa-comício da CDU na Rua da Carreira: “Ora viva o 25 de Abril!/Estamos a aturar duas troikas. Uma delas é constituída pelos PS, pelo PSD e pelo CDS e são da casa, e a outra é estrangeira, é a que nos visita a convite, com a saca dos remendos, agora que os nossos fundilhos se romperam, a  do FMI, do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia, para salvar os nossos bancos e ensinar os políticos a arte de tirar aos pobres para dar aos ricos./ Confesso, meus amigos, que estou farto, mesmo farto, de ouvir falar deste Portugal que é nosso como se tratasse de uma quinta que pertence a outros e onde nós não parecemos passar de uns meros contribuintes a serem espremidos até ao último cêntimo./Convivendo com o PS e o PSD, que parecem dois galos na mesma capoeira, surge o pretenso democrata-cristão. E se o PS, já no tempo do Dr. Mário Soares, enfiou o marxismo que naturalmente lhe competia numa gaveta, e o PSD trocou, numa feira da ladra a social democracia, que acena na sua designação, por um neo-liberalismo de pacotilha, eis logo surge o CDS a meter num saco e a lançar ao mar, com umas pedra aos pés, o que tinha de valores cristãos, para que não lhe pesasse a consciência no seu afã de defesa de uma exacerbado capitalismo./            Só nos faltava que aparecesse agora o Otelo Saraiva de Carvalho, que sempre tivemos como capitão de Abril, de cabeça perdida, a arrepender-se de ter feito o 25 de Abril, dizendo que se era para chegarmos a isto, se arrependia!  Bem, como ele se esquece, tal como Vasco Lourenço e outros que, depois de terem dado o golpe decisivo contra o salazarismo, se deixaram seduzir pelo canto de um par de sereias, a mais perigosa das quais dava pelo nome de Grupo dos Nove. E que a partir daí, foi a constituição de 1976 praticamente o único esteio do 25 de Abril, das conquistas dos trabalhadores. E é na defesa destes valores que nós mantemos a chama./É por isso que em cada ano trazemos aqui estamos com palavras e bandeiras para iluminar as populações, para vos fazer erguer os punhos cerrados não para cumprir uma celebração, mas para descansar sobre a efeméride mas para alertar. E agora estamos num momento crucial, um momento de eleições altamente perigoso. Para alertar urgentemente./Pelo vosso interesse, acordem!/Pelo interesse colectivo deste nosso pais português, acordem!/O PS, o PSD e o CDS falam de eleições como se ninguém mais contasse e aquilo no 5 de Junho fosse uma pizza a distribuir por eles três. E está nas mãos de todos nós evitarmos que essa gente acabe por nos pôr a todos a comer o suporte de cartão onde assenta a pizza! Isso não mata a fome. Também os senhores jornalistas madeirenses, que não fazem ideia o que será o dia de amanha para os seus jornais, o que significa o mesmo para si próprios, têm a inconsciência de perguntar-nos se a CDU conta eleger um deputado por este circulo. Fazem esta pergunta com uma espécie de tola complacência./E nós queremos responder, alto e bom som que a CDU concorre a estas eleições de pleno direito, com os seus militantes do Partido Comunista e de Os Verdes, com os seus simpatizantes, no secretismo dos votos de milhares de pessoas que não poderão ser espiadas no canto em que fazem orgulhosamente a cruz na nossa candidatura./Desejamos a vitória neste como nos outros círculos por uma razão muito simples:  queremos defender a mudança nesta terra, a autonomia da Madeira e dos madeirenses e porto-santenses, queremos defender os interesses da nossa gente, pois estamos fartos, imensamente fartos, todos os madeirenses estão fartos do jardinismo, do socratismo e não querem experimentar a tal democracia cristã de feira./Camaradas e amigos,/     A vida na Madeira não suporta brincadeiras politicas como as palhaçadas das últimas eleições, em que milhares de eleitores andaram à deriva e as coisas deram no que deram./O desafio nestas eleições é a mudança, a mudança radical, a ruptura com o aventureirismo. O ciclo do chamado bloco central já mostrou que não funciona, agora o caminho é pela esquerda, que a esquerda tem a noção das responsabilidades e um plano de governação responsável – coisa que nem o PS, nem o PSD nem o satélitezinho de sacristia fingida demonstraram ter nas suas andanças pelas cadeiras ministeriais./A CDU está disposta a assumir governo, não se assustem os eleitores, a questão é que os votos caiam na urna. A questão é que votem em nós. Somos uma força politica./De resto, tenham os madeirenses tenham a consciência que cada uma das numerosas inaugurações marcadas daqui até 5 de Junho são de obras pagas pelo nosso dinheiro e não pelos cofres do partido do Governo Regional. Por isso, não se entusiasmem e pensem bem: querem levar com mais do mesmo ou querem mudar?/Querem que o 25 de Abril chegue finalmente à Madeira ou não?/O voto estará nas vossas mãos, bem como a esferográfica  a possibilidade de pôr a cruz diante da nossa sigla. Não se enganem!/Assim!/Viva o Povo Madeirense livre do medo!/Viva a Autonomia Madeirense!/Viva o 25 de Abril em todos nós!/Viva Portugal livre das troikas opressoras!/Viva a Liberdade!”

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